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As razões do blogue

Quando blogues já não estão na moda, quando ninguém tem tempo para ler, aranhas começam a segregar os seus fios. Porque há livros escritos com tinta invisível que traçam cartografias da resistência. Como a limpeza doméstica é uma guerra sem reservas, há de ser simples dar cabo das aranhas. Ou talvez não.

 

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Um manifesto político em Galeguia (antes chamada lusofonia), de Manuel Miragaia

Manuel Miragaia

Numa entrevista publicada em Jornalirismo, o escritor angolano Pepetela expressava a suas profundas reticências relativamente ao o termo lusofonia, com que se denomina a união dos países de fala portuguesa: “é um mito forjado há pouco e que não vai ter grandes frutos se se continuar em insistir que o que nos une é só a língua”[1]. Precisamente, como alternativa surge a etiqueta galeguia, que remete para as origens históricas e coloca em foco a Galiza, banindo o capítulo colonial que explicaria a situação alargada da língua hoje no mundo. A tentativa não era, contudo, pioneira. O termo galeguia fora já proposto por Luís Ruffato no VIII congresso da Associação Internacional de Lusitanistas em 2005 e, como indicava Bruno Góis[2], a brasileira Adriana Lisboa, os portugueses José Luís Peixoto e Possidónio Cachapa, o angolano Ondjaki, o timorense Luís Cardoso e os galegos Quico Cadaval e Carlos Quiroga mostraram-se favoráveis a esse neologismo. Em 2014, a cantora Aline Frazão, também angolana, reivindicava novamente a etiqueta e, como se sabe, as opiniões do pessoal da música influem especialmente na sociedade. Aliás, Aline Frazão julgava que era uma maneira elegante de esquivar o inominável, a colonização, para num apelo à concórdia, neutro e unificador, apanhar a unidade das variantes espalhadas pelo mundo[3]. Logicamente, as suas palavras tiveram grande eco na Galiza porque ressumavam afeto por esta terra:

Não há terra como a Galiza, não há gente como a galega. Quem, dos que falamos português, já foi tocado pela generosidade desse canto do planeta, sabe do que estou a falar. Do Brasil, perguntem ao Chico César ou ao Lenine. Da Guiné, perguntem ao Manecas Costa. De Angola, perguntem ao Pepetela ou ao Ondjaki. Eu mesma vivi em Santiago de Compostela um ano, onde cultivei sólidas amizades e projectos profissionais (lá gravei o meu primeiro disco), vivendo cada dia em português. A maneira como somos recebidos na Galiza ultrapassa qualquer definição de hospitalidade. Falamos a mesma língua e isso nunca teve um efeito tão surpreendente, tão carinhoso. Mas este é ainda um vínculo escondido, um laço invisível, um namoro secreto que deve ser assumido oficialmente e bradado aos sete ventos. […] Vai ser que, afinal, não falamos a língua do colono: falamos galego de Angola, com o sabor bantu do Atlântico-Sul.

O recente livro de Manuel Miragaia pode ler-se como um contributo a esta guerrilha da comunicação que demostra as colisões internas dos átomos, as suas fricções e roçamentos, numa língua que ocupa o sétimo lugar entre as mais faladas do mundo. O autor intitula precisamente o seu poemário Galeguia (antes chamada Lusofonia) e Manel Cráneo, o seu potente ilustrador, propõe como capa uma casa de pedra em cuja porta, uma labrega galega, com socos e chapéu de palha, figura acompanhada dum preto e dum indiano do Brasil. As três personagens têm qualquer cousa nas mãos: a galega um pão, o africano um globo terráqueo e o brasileiro um forcado de duas pontas. Mas ainda falta um elemento: ao pé deles três foi colocado o galo de Barcelos. Portugal é apenas representado por um objeto simbólico, como se quisessem transmitir-nos que a força libertadora do grupo descansa n@s oprimid@s. Ainda bem que a editora Chiado, portuguesa, reserva como logótipo um pequeno círculo onde figura o próprio Pessoa; noutro caso até poderia parecer um agravo contra Portugal. Não tal. Porém, antes de tomarmos posicionamento num debate que se apresenta polémico, importa é dizer que este livro nasce duma ferida.

As feridas podem ser múltiplas. As mais inofensivas são chagas minúsculas na pele que deixam o tecido interno à vista. Lavamo-las cuidadosamente; cobrimos as feridas com um apósito e confiamos em que curem. Porém, algumas são mais profundas: procedem de grandes afrentas com a sua carga de dor e humilhação. Na descrição habitual, indica-se que os ferimentos são feitos por utensílios, por armas ou por comportamentos simbólicos. Quase sempre é esquecida a palavra como causa da ferida. É frequente escutar numa discussão que tal ou qual aspeto constituem apenas uma questão terminológica. Quem assi falar está a suster que as palavras são tema menor, que estorvam porque escurecem os conceitos. Quem assim falar está orgulhoso de não ser suscetível. Situa-se por cima das emoções; situa-se na magnífica ingenuidade de Leibniz que, quando uma vez propus um sistema de comunicação artificial, estava certo de poder escapar da ambiguidade e a vaguidade das línguas humanas, presumivelmente defeitos, e ainda de superá-las com um sistema da sua invenção. Leibniz era, sem dúvida, um homem seguro de si próprio. E um bocado ingénuo, visto que considerava que com o seu artefacto permitiria desvendar quem de entre os participantes num debate teria razão porque com uma língua lógica e perfeita chegaria um momento em que o equivocado simplesmente não poderia construir a seguinte frase. Porém, muitos de nós, muitas de nós, em particular, somos suscetíveis. O feminismo, por exemplo, foi elaborando um relato potente sobre a falta de inocência das palavras. E o mesmo pode dizer-se de todos os movimentos subalternos. Ser oprimido implica sempre adaptar-se aos conceitos e valores do opressor, renunciando aos próprios: isto serve para o relato de classe, para o relato de raça, para o relato de género e para quaisquer outras diferenças. Daí que Manuel Miragaia empreenda nesta entrega poética uma reescritura da história, através da língua comum. Todo um repto.

O desafio de Manuel Miragaia é praticado sem concessões num repasso pormenorizado a diferentes figuras da história preteridas ou invisibilizadas. O monte Medúlio −aquele episódio mítico onde até as mães envenenam os filhos e a si próprias para serem antes mortas do que escravas−, o rei suevo Hermerico −o primeiro conde de Portucale, nascido, por acaso, na Crunha− ou o mariscal Pero Pardo de Cela, que resistiu o assédio dos reis Católicos e só foi apresado pela traição dos seus criados−, como outras figuras mais modernas: Rosalia de Castro, Castelao, o Johán Vicente Viqueira das Irmandades da fala, o guerrilheiro Foucelhas ou o sensível artista Man. Também pululam por Galeguia personagens doutras latitudes: o Zumbi dos Palmares −o último líder dum quilombo do Brasil colonial− o Tiradentes −executado por ter participado na conspiração de Minas Gerais contra o domínio português− ou Amílcar Cabral, libertador de Guiné-Bissau e Cabo Verde. Todas elas circulam pelo poemário junto a outras vozes plurais e coletivas: a da outra Galiza, interior e abandonada, a dos pobres mareantes, a da Mátria.

Galeguia é um texto com vocação épica e política e, nesse sentido, antipoético. Não pretendo com isto dizer que esteja falto de beleza. Simplesmente, o autor não pretende apressar a palavra e reduzi-la à mínima expressão, como é habitual na poesia contemporânea. Ao contrário, Manuel Miragaia transita um universo fortemente narrativo, onde a rima é um recurso de bardo, a repetir um som monocorde, incessante, com ressonâncias solenes. O objetivo, a meu ver, é difundir um manifesto político: informar dessas figuras, relatar a história dum agravo e infundir coragem a quem ler. Os poemas “Sermos bisagra” e “Carta galega ao Estado espanhol” são indicativos deste afã e, para quem lê na Galiza, é impossível não lembrar o Ramom Cabanilhas de “Em pé”.

Voltemos ao começo. A palavra Galeguia vinha a manter vivo um debate, o das línguas usadas como arma política. Uma fronteira política convencional colocou a Galiza dentro do estado espanhol e fora do estado português, mesmo se falamos a mesma língua. Com o tempo, esse processo determinou que na Galiza se tornasse oficial uma variante com traços de crioulização entre o português e o espanhol e escrita tendo este como modelo, numa decisão que visava conseguir a sua aceitação como língua escrita e a sua introdução nas escolas, no melhor dos casos, ou para evitar qualquer movimento separatista, na versão política que muitos de nós preferimos e que a atualidade do caso catalão obriga a revisar: a unidade da Espanha não pode ser questionada, a menos que se pretenda ser acusado de sedição.

Mas também essa irrealidade convencional do estado é a que determina que territórios afastados da metrópole e dominados por ela (Brasil, Angola, Moçambique, Cavo Verde, Timor) se vissem obrigados a abandonar as suas magníficas línguas, muitas delas em franca agonia. A ideia de as línguas serem uma pertença em exclusivo dos seus falantes responde a uma ótica nacionalista no sentido em que usa este termo na Europa: uma ótica chauvinista e folk. As línguas são, como a arte ou o conhecimento científico, patrimônio cultural de todos os seres humanos, e a sua perda faz com que a humanidade seja a cada ano mais pobre, mais homogénea. A ferida volta a sair à luz. Quem negar as palavras não poderá ressarcir depois com elas. A colonização exercida por Portugal ou por qualquer outro estado é um episódio triste, que implicou a exploração da classe trabalhadora, o racismo, as humilhações exercidas manu militari, a expropriação dos recursos naturais das etnias submetidas, e uma, mais que evidente, destruição da natureza −dos rios, das florestas, dos mares, das substâncias naturais sanadoras que se encontram na selva−. Mas também a colonização exercida pelo estado espanhol na Galiza inclui esses episódios, exceto talvez o de raça porque somos pálidos como os suevos, mas lembremos com quanto rigor e seriedade científica queriam os sábios gramáticos manter nos dicionários do espanhol a aceção de ‘parvo’ para o termo galego.

Como quase todos os problemas políticos a questão é ordenar as prioridades. O livro de Manuel Miragaia obrigou-me a matutar muito seriamente sobre se era uma prioridade a questão da etiqueta. Acho que não. Não tenho problema com lusofonia porque priorizo é que nos agasalhem com a sua cumplicidade e com o seu respeito os irmãos que moram lá fora e que falam outras variedades da nossa mesma língua. Lusofonia, para mim é um termo perfeitamente válido e discordo com Pepetela: o facto de apenas estarmos unidos pela língua não é questão menor; eis a nossa força. Mas olho com curiosidade a tentativa de reapropriação praticada pelos partidários de Galeguia; a reapropriação sempre é punk, sempre é feroz, estimulante. Cá, na Galiza, para convencer o pessoal falto de autoestima, muitas vezes evitamos o termo português e usamos o de galego internacional, que ainda muitos utentes de normativas reintegracionistas detestam com o curioso argumento de o galego não precisar internacionalidade para ser. Obviamente. O euskera é uma língua e não precisa de apoio exterior. O catalão é uma língua e não precisa ser falado além das suas fronteiras. Porém, termos a hipótese de difundir os nossos produtos sem passar por intermediários, de enriquecer-nos com as nuances do galego bantu de Aline Frazão ou do galego amazônico, ou do galego do Algarve, é uma oportunidade que não estamos em condições de esbanjar. Para a supervivência do galego em concreto, importa é ser internacional.

Hoje, quando a AGLP já entrou na CPLP, bem que nessa condição inquietante de observadora, o debate pode ser interessante. Para não ver a língua como instrumento duma história passada de opressão, mas como uma ponte para partilharmos literatura e música, comércio, ideias, espaços de encontro, conceitos académicos. Sem que ninguém tenha que deixar de ser quem é.

Manuel Miragaia trabalha lá, introduzindo neste Galeguia, que é um texto pedagógico, um apêndice com informação das figuras que uns estados que vivem de costas viradas não difundiram, e com as palavras da variante galega que não são usadas em Lisboa e que ele está a reivindicar. No seu texto, para além do projeto inicial, aparecem outros muitos temas: a conquista da soberania política, ecos antipatriarcais e um profundo amor pela paisagem que produz um poemário suscetível duma leitura ecocrítica.

Parafraseando Aline Frazão, vai ser que, afinal, não falamos a língua do colono, que no nosso caso é o espanhol: falamos português da Galiza, com o sabor indígena do Atlântico-Norte das nossas rias.

 

 

[1] .- http://www.jornalirismo.com.br/literatura/17/1406-pepetela-pelo-amor-reciproco-entre-africa-e-brasil

[2] .- http://www.esquerda.net/opiniao/galeguia-descolonizar-nossas-linguas/33064

[3] .- http://www.redeangola.info/opiniao/trocar-a-lusofonia-pela-galeguia-2

Matar os caubóis com Alexandra Lucas Coelho

Alexandra Lucas Coelho assina um título provocador, O meu amante de domingo (Tinta da China, 2014), onde assistimos ao que fica após a catástrofe num caso amoroso, mais ou menos turvo, desses que marcam quem os experimentar, com uma perspetiva atual, um ritmo vibrante e um humor desatado. Porém, o assunto, como sempre na literatura, não é assim tão importante; é o modo de contar o que captura a atenção, o que entusiasma: um estilo rápido, descontraído, profundamente divertido e, contudo, pungente. Poético mesmo. Inconfundível.

Imagine-se um capítulo onde a protagonista, uma mulher vital e independente, é capaz de começar assim: “Eu quero trincar-lhe o coração cru, não menos do que um rei já fez, extrair o tubérculo peniano, tritura-lo picadinho […] Sou uma assassina em série porque quero matar o cabrão muitas vezes. Odeio-me pelo tempo que perdi a odiá-lo, e odeio-o pelo tempo que perdi a odiar-me. Uma pessoa no meu estado não fode um mecânico ou um futuro Nobel porque se esqueceu de um cabrão, ou para o esquecer. Uma pessoa no meu estado fode um mecânico ou um futuro Nobel por se lembrar de um cabrão e lembrando-o”. Ou ainda um outro começo: “Gosto de homens. Os homens são a imaturidade das mulheres, difícil não ficar refém neles”

A protagonista, ao revisar essa relação prévia, não permanece à espera, segundo os rituais da estação do desamor, tão gratos aos filmes e aos romances nascidos para se tornarem roteiros cinematográficos: lá estão o mecânico e o candidato a prémio Nobel de literatura para entreterem o corpo e as suas pulsões, mas também para indagar no porque do erotismo. Quando o amante enganou, mentiu, e massacrou as palavras pronunciadas na intimidade não haveria razão para o lembrar, se não fosse que às vezes vivemos também na procura de quem antes fomos, se não fosse que a protagonista não pode perdoar-se por tanta ingenuidade, pela tensão: “Quando nos fodem o coração de um momento para o outro, a grande perplexidade não é como vivemos o que vivemos, mas como não vimos o que não vimos, ou seja, não a entrega, mas a estupidez. […] Golpe de misericórdia é saber logo que foi mentira. Porque se algo aí morre, algo começa a matar”.

A volúpia é uma forma suprema de autoconhecimento. Daí, desse afã de saber, que a protagonista não permita as suas feridas cicatrizarem. Quando revê mentalmente os capítulos daquele caso finalizado, a antiga proximidade dele dói. Instala-se na ferida de não poder ter com ele ou, mais bem, na ferida de já não ser aquela. E como está a cicatrizar, mexe na ferida para ela sangrar de novo.

A psicologia diria que essa é uma atitude destrutiva. Os higienistas das relações sociais insistiriam na toxicidade desse amor, como se tivéssemos a obriga moral de nos mantermos em perfeita saúde mental, para ao final oferecer ao mundo um lindo cadáver. O tabaco mata, asseguram as caixas de cigarros, ilustradas com fotos assustadoras. Assim sendo, o pessoal decide não fumar. Em perfeita coerência, a sociedade atual cuida-se do amor e dos seus excessos e qualifica rapidamente de tóxicos todos os relacionamentos que não servem para a felicidade. “Isso não dá!”. Como se a felicidade, esse projeto de cidadãos bem-comportados, constituísse o fim único, o nosso alvo. Bem, também a vida mata. Inexoravelmente. Talvez por isso decidamos não a experimentar na sua profundidade, assim como decidimos medir-nos, entregar-nos em pequenas doses para não nos mancar de mais. A protagonista de O meu amante de domingo não se dosifica. Não tem planos. Apenas o de nadar e alimentar a gata da sua amiga.

“Raramente digo um gajo”, esclarece, ocupada em analisar as suas próprias palavras e, particularmente, os muitos palavrões que emprega. Mas vai estourar rapidamente; prefere lembrar o amante como “o cabrao do filho da puta do caubói”. E nesse excesso verbal, nessa ferocidade expressiva, a autora dispõe as suas melhores armas. Armas inteligentes, de finas análises sociológicas e literárias, e armas cómicas. A protagonista revisa as gralhas das mensagens que chegam do telemóvel, vai para a piscina e lá esbanja a energia sobrante; regressa para debater sobre literatura −num diálogo que deveria ser estudado nas aulas de Teoria da Literatura das Universidades− com o candidato a Nobel, que apenas quer metê-la na cama, mas tem que passar antes pela prova de suster o ritmo duma conversa espinhenta com quem já sabe todas as armadilhas que nos puseram dentro da cabeça Dostoiévski, Nelson Rodrigues e o próprio Joyce, esse que conseguiu escrever o mais famoso monólogo da história da literatura sobre a massa do seu próprio matrimónio.

Ao encontrar tanta vida num romance, tive de proceder de maneira sistemática e rigorosa e dei um passo para trás no tempo e vários para a frente na leitura até conhecer outras obras da Alexandra Lucas Coelho, como o Caderno afegão ou Oriente próximo, narrativas de viagens, resultado dos seus trabalhos de repórter em terras longínquas e perigosas. Alta qualidade também, mas o romance permite, sem dúvida, outras liberdades. Recentemente dei com o E a noite roda, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Editores em 2013. E deliciei-me, mais uma vez, com o relato da ferida, nesta vez na forma daquele Léon que não teve a coragem de romper com a esposa, numa visão aceda, mas desdramatizada, dos modos eróticos do nosso tempo e da fraqueza das grandes palavras. Noutras épocas, as de Emma Bovary, Ana Karenina ou Ana Ozores, as mulheres casadas tomavam amante; o irresistivelmente contemporâneo é que as mulheres livres tomem amante, não companheiro, que não se rendam aos preceitos dum modelo de casal, que decidam os encontros eróticos e os seus ritmos e, no entanto, percam o controlo de si −a definição mais clássica do amor.

A originalidade da narrativa de Lucas Coelho nem só faz rir e comove; é inevitável que muitas escritoras atuais peguemos nela como se fosse um território já visitado, como se tivéssemos experimentado o texto. Precisamente esse texto.

Não vi resenhas críticas destes romances, fora dos resumos habituais. E teria gostado. Porque acho que essa liberdade criativa com que Alexandra Lucas Coelho aborda o desamor está a romper as cadeias causais da ideologia. Por dentro. Noutra época os romances tinham vozes exclusivamente masculinas (“Je suis Madame Bovary” dissera Flaubert). E agora, quando passaram a encarnar-se em personagens femininas, o relato da sociologia tende a fazer-se ouvir a mais: as mulheres têm de aparecer como independentes, decididas, prestes a manter a sua liberdade por cima de qualquer outro objetivo, como se a literatura houvesse de se ajustar a um decálogo de ideias, como se tivesse de ser “literatura de ideias”. Sem perderem autonomia, as protagonistas de Alexandra Lucas Coelho, optam por outras vias: as do exagero e a desesperação. Coladas aos seus sentimentos, adotam formas sutis de rebeldia, como a vingança. Escrever a história para se libertar dela. E apontam para uma desconcertante intensidade: esse assassínio do caubói tão simbólico como catártico. Numa sociedade politicamente correta, uma tão desaforada tentativa de recuperar o controlo não pode ser aceite. Lá justamente é que nasce o desafio das artes; quando a autora fantasia com a violência e quando a resolve, como é de esperar, simbolicamente, a brincar nos limites do vivido e do imaginado. Porque, como diria a autora, “o que lês torna-se a tua vida. Se a literatura não é vida é o quê?”.

A girar na fita de Moebius: a economia do género de Rebeca Baceiredo

rebecabaceiredo

Tudo começa com a fita de Moebius, uma superfície dum só lado e duma única borda, um desses objetos não orientáveis da matemática que põem a prova o entendimento e a imaginação. Se dermos cor ao aparente exterior, ficará corada toda a fita, que, portanto, representa um caminho sem princípio nem fim; sem exterior nem interior. Rebeca Baceiredo decide passar o dedo pela borda duma fita de Moebius, como fizeram Escher e tantos outros artistas, para chegar ao ponto de partida após ter feito o percurso total.

Felizmente, um ensaio nem sempre é um volume erudito onde esgotar completamente um tema. Para isso existem as teses de doutoramento e as publicações especializadas. Ensaio é literatura de ideias, com efeito, mas atravessada pelo interesse criador: importa a achega própria, o diálogo interno com o assunto que se trata, e a poética imprescindível para nos manter dentro desse território amplo da literatura. A autora, nesta entrega como noutras anteriores, demostra a coragem de se enfrentar de peito aberto a um assunto que a preocupa. A coragem é a sua arma. E concede um perfil próprio a toda a sua obra: magmático e provocador.

O ensaio, de facto, foi fulcral na história da literatura galega e, no entanto, hoje é um género relativamente escasso; e, aliás, com poucas assinaturas femininas, o qual numa época em que já temos tantas mulheres peritas nas mais variadas disciplinas deveria ser em si próprio motivo de inquietude para a pesquisa cultural. Nessa tradição de valorizar o ensaio literário, que remonta à Geração Nós, Baceiredo tem-se debruçado sobre diferentes temáticas: o sujeito pós-moderno, o consumo, a apatia na época da globalização, e tem conseguido o Premio Ramón Piñeiro, o único certame específico para este género na literatura galega. O seu pulso sempre é firme, decidido: observa os assuntos por si própria, ajudada pelas ferramentas duma dilatada biblioteca e dum espírito crítico pungente, que fura até revelar algo novo, frequentemente apresentando-o adornado duma capacidade estética comovedora. Observa-se nela um interesse metódico em não dar por certo nada até não ter desmontado as peças da engrenagem e ter volto a montá-las. Isso implica negar as autoridades e alçar-se a dialogar diretamente com o assunto: uma atitude que deve ser celebrada.

Nesta ocasião, em Oiko-nomia do xénero: Relato das clausuras chega-se a um tema que provavelmente estava a ser demandado no conjunto da sua obra, o do género. Na estranha lógica da vida quotidiana, imposta frequentemente pelos médios de comunicação, nunca se pergunta a um autor se considera a sua masculinidade, ponhamos por caso, peça fulcral para escrever teatro, ou como pode conciliar a sua produção intelectual com a sua vida privada. Tais perguntas julgar-se-iam inoportunas e não é assim muito surpreendente. Porém, uma autora deve responder, diretamente nas entrevistas ou indiretamente, no relato da crítica, ao seu relacionamento com o género.  Nesse sentido, há de ter-se visto interpelada. E decidiu dar forma a essa resposta num volume breve, mas de certa dificuldade para uma leitura não especializada, que se situa, acho que deliberadamente, nesse circuito infinito de Moebius.

Tratar o tema do género sempre é espinhento: é a cápsula que nos atravessa e que nos representa socialmente. Da mesma maneira que a autora é olhada como mulher na foto da capa, há de ver-se exposta como corpo sexuado ao revistar as políticas que regulamentam a maternidade, o matrimônio, ou as liberdades todas −as das boas mulheres que um dia decidiram tornar-se pérfidas, as das insatisfeitas, as das putas, as das violentadas e as das quem nem cabem em si e resistem a qualquer classificação−. Dalguma maneira, continuamos a ser um sexo com patas e, às vezes, um sexo com patas que faz filosofia. Eis o atrevimento de escrever sobre género assinando com um nome de mulher.

Em consequência, Rebeca Baceiredo decide proteger-se. Visto que se expõe como tal corpo-sexuado-que-também-pensa, agasalha-se com outra tradição: a marxista que, imagino, abraça por motivos ideológicos, mas também está a servir de escudo para ela não se inscrever sem mais no território, vasto e às vezes contraditório, dos estudos de género. Não estamos, portanto, perante um ensaio feminista sem mais apelidos −talvez hoje, com tantos feminismos isso simplesmente não seja possível. Estamos perante um ensaio sobre género que dialoga com o marxismo. Contudo, percebe-se um ponto de vista mais próximo da Rosi Braidotti da subjetividade nómade do que da Kollontai o qual, sem dúvida, também é de esperar, tendo em conta razões cronológicas. A fita de Moebius está já em marcha: mesmo pretendendo uma análise legível em termos marxistas, a autora demonstra sempre uma clara preferência por autores heterodoxos, em especial, por Deleuze, Guattari e Foucault.

Tal e como se situa o tema do começo, o objetivo consiste em justificar a relação entre género e sistemas de propriedade. E a dupla mochila feminista e marxista assoma tanto nos temas que se colocam em destaque como no tratamento da bibliografia. Por exemplo, mesmo se recorre a Eva Illouz, nunca aceita as suas categorias psicológicas, do estilo da felicidade emocional, porque Baceiredo tem marcada preferência neste trabalho pelas questões materiais, pelos dados contrastáveis e evita, na medida do possível, aspetos mais subjetivos. Dalguma maneira está a rejeitar os universos simbólicos, onde, no entanto, ela se mexeu sempre tão bem. Isso, devo confessar, desorientou-me. Esta restrição autoimposta deve querer significar algo: começamos a nos deslizar pela fita. Era uma figura inesperada. Em geral, o ensaio segue a topografia dum vetor: leva para algures, premeditadamente. Não estamos exatamente lá.

A seguinte surpresa chegou dum olhar diferente da Baceiredo que conhecia. Agora expõe as suas ferramentas para darem nas vistas. Vai para a antropologia e para história, continuadamente, às vezes duma maneira reiterativa ou excessivamente abrangente: o povo mbtu do Zaire, o lovedul e o pondo da África do Sul, o povo ganda da Uganda, o nupe da Nigéria, o chinanteco do México, o mbum kupau do Chad, as mulheres iorubas, as iatmul da Nova Guinea e ainda muitos mais casos. E sobrevoa a época das cavernas, as mulier sapiens, com licença da expressão, as das covas de Chauvet ou de Lascaux, as da Mesopotâmia e o Egipto, as que se submetem aos pater familias de Roma… A leitora por um momento entra em alerta e interpela à autora: “Rebeca, se juntares tantos dados em duzentas páginas, não hás de ter espaço para dizer nada próprio”. Evidentemente, ela queria segurar a sua hipótese, para afirmar (2016, 106) que não importam tanto as capacidades que as mulheres demonstrem, mas o regime da propriedade e a forma da superestrutura que se gera para o manter. O relato das clausuras está fechado: nem necessita ser explícito porque se conseguiu que fosse inerente à condição feminina. Tantos dados deitados cá e lá só passam a ser relevantes quando a autora usa o seu dardo para comparar, com evidente ironia, as diferentes tribos, por exemplo ao indicar (2016, 112) que, enquanto Ocidente lutava por ensinar os peitos fora da olhada patriarcal hegemónica, as castas baixas da Índia lutavam para ter a possibilidade de se cobrir, algo que era estritamente proibido para manter as diferenças hierárquicas. Assim sendo, todas as culturas obraram de acordo com um universal que sexualiza as mulheres como suspeitosas: são um ser diferente do demandado socialmente, que deve submeter-se a rígido controlo.

Mas a fita de Moebius é perigosa porque regressa para o princípio. Ser mulher é um dado biológico que em todas as culturas se torna num artefacto simbólico para o domínio. E se o construto se fundamentar numa base biológica universalmente, poderíamos prescindir do construto… e não podemos. O domínio geral do masculino no mundo foi intuído pelos primeiros feminismos e desenvolvido com lucidez pelo feminismo radical e nem imagino que a autora não saiba. Porque é que desliza, então, o seu dedo numa fita infinita que nos vai conduzir para o ponto de partida? Uma das maneiras de desfazer a circularidade, acho, seria demostrar como os traços de feminidade, quando se derem nos homens, são vistos como negativos, porque lá é que deixaram de ser “naturais”. Quando performamos como mulheres, por exemplo gesticulando, não respondemos a um patrão biológico, mas a uma conduta socialmente incutida que também se percebe nalguns homens: isso que em espanhol se chama de pluma e que é tão castigado. Porém, Baceiredo não quer entrar nas tradições feministas, que analisam diretamente a depreciação inerente ao feminino. Não quer entrar, digo, e matizo, não completamente; porque se veria obrigada a atender aspetos simbólicos e tenta é dirigir-se a outro tipo de público. A fita cumpre um objetivo pedagógico? Talvez.

Nos estudos de género aconselha-se incluir o nome das autoridades expostas na bibliografia para salientar que não todas elas são homens e a autora utiliza esse procedimento que permite uma comprovação simples: o 45% da bibliografia final é de autoria feminina e ela passa com sucesso o exame. Não é precisamente habitual isto ainda. Porém, no interior do trabalho, pode notar-se também, não utiliza todas as autoras de que faz citação, de maneira que quando, por exemplo, menciona ao final a já referida Alexandra Kollontai, há que imaginar que simplesmente a autora quer mostrar-nos a sua filiação; inscreve-se num hipertexto. Duma maneira bem reveladora, por exemplo, no capítulo onde se ocupa do processo de imposição capitalista e do género, aparecem Marx, Engels, Negri; também Foucault, Deleuze e vários autores mais, menos conhecidos. Mas apenas uma vez cita Silvia Federici, a autora de Caliban and the Witch, que tão brilhantemente matizou a teoria da acumulação primitiva de Marx e que, embora ser uma pensadora marxista feminista, apoia o reconhecimento do trabalho doméstico, o trabalho sexual e a luta pelos comuns. Marx não se ocupara do trabalho reprodutivo, imprescindível para o capitalismo, e Federici vai interpretar o capitalismo como um movimento reacionário para eliminar o comunalismo e manter o contrato social tradicional. Esta é, grosso modo, uma ideia que Baceiredo partilha, embora passe pela autora precedente em bicos de pés. Para apontar um hipotético caminho de convergência entra ambas, Federici situa a prática da violação, assim como as torturas e queimas de bruxas como um trabalho metódico de doma e castração das mulheres, que depois há de ligar-se à expropriação colonial e proporciona o quadro para entendermos o labor de tantas instituições (ponhamos por caso o FMI ou o Banco Mundial) que promovem uma nova acumulação dos bens comuns. Porque neste momento histórico a água, as sementes ou o próprio código genético estão a ser privatizados. E não por acaso, conseguir água potável ocupa muitas horas na vida das mulheres fora do primeiro mundo; os transgénicos acabaram com um tipo de saber em que eram peritas as mulheres idosas (o de decidir em que momento semear, quais são as sementes melhores e mesmo o modo de conservá-las) e a engenharia genética pratica-se diretamente sobre corpos femininos. Seria muito interessante, e perfeitamente acorde, acho, com o pensamento de Baceiredo, explorar estas linhas.

A Oiko-nomia que se nos presenta tenta ser ortodoxa e só esporadicamente entra nas tradições dos estudos culturais (via Spivak); nunca noutras tendências anticapitalistas mais genuínas dos estudos de género, como o ecofeminismo. Nem Vandana Shiva, nem Maria Mies, nem Greta Gaard, nem Carol Adams. Por isso, a leitura pode surpreender. A mim, pelo menos, surpreende-me um ensaio sobre género que cite Aristóteles ou até cinco trabalhos de Marx e prescinda, no entanto, das mais inovadoras formas de feminismo que conheço. É certo que isto, como quase tudo, é subjetivo. É certo que eu posso encontrar o ecofeminismo estimulante e ela não. Mas num relato sobre a oiko-nomia achei em falta alguma reflexão sobre a conexão entre os direitos das mulheres e os dos animais (na linha que vai da ética de Tom Reagan e Peter Singer às ecofeministas mencionadas), ou sobre a relação entre a opressão da classe proletária e a opressão do Terceiro Mundo e das mulheres; ou falar em propriedade da terra ou em engenharias genéticas.

A tese fundamental é que as mulheres são oprimidas em todas as culturas. Nisso consiste o género: em que as condições e peculiaridades da fêmea entrem na sociedade como um mecanismo de opressão. E a autora revista as cavernas, as civilizações antigas, Roma, a Idade Média para dizer que tudo foi a pior e não a melhor com o capitalismo. Concordo. Porém, na linha da Historiografia da vida quotidiana, o feminismo começa a ter certo impacto em Ocidente na mesma época em que se popularizam os eletrodomésticos; a época em que Betty Friedan assinala o mal-estar e o aborrecimento da ama de casa burguesa, quer dizer, justo quando o trabalho de cuidados passa a ser aparentemente menos necessário. Não sei se importa só que um trabalho seja mercantilizado ou não; importa, e muito, a noção de ser apreçado, de se considerar útil: importa, portanto, também o capital simbólico.

É fundamental que se escrevam em galego ensaios que olhem além do contorno social imediato: autora e editora devem ser parabenizadas. Mas lamento que não se dialogue com nenhuma pensadora galega. Aurora Marco ou Maria Xosé Rodríguez Galdo, por mencionarmos figuras de reconhecido prestígio, proporcionam dados de inestimável valor. Bastante mais úteis do que os de Aristóteles. Para apoiarmo-nos num exemplo, ambas investigadoras documentam a figura de Elvira Rodríguez, uma mulher de Ourense que denunciou o seu homem por maus tratos e conseguiu que um tribunal a protegesse com uma sentença de afastamento, a primeira em toda Europa, que se dita em Ourense… antes de Colombo chegar à América. Como Rebeca Baceiredo trata a violência em termos nada rotineiros, como faz análises rigorosas e sistemáticas que enunciam o que todo livro deveria conter, algo novo e não trivial, a hipótese de ela caminhar de mãos dadas com outras pesquisadoras que, também com coragem, maridam o velho e o novo, convida a pensar que talvez a oiko-nomia ainda não esteja completa. Gostaria de que estas palavras servissem para animar Rebeca Baceiredo a continuar a sua exploração. Porque, após ter dilucidado neste ensaio tantas questões, a sua ótica há de ser mais profunda. Nas redes sociais, difundia a autora nesta época pós-parto do seu livro uma interessante reflexão contra o uso do termo terrorismo machista, tao habitual em ambientes feministas para denominar a violência de género. Precisamos isso: fazer uma análise (política) do discurso, para não emitirmos simples palavras de ordem, abrir debates incansavelmente; não achar conforto perante a violência; essa tensão.

O livro é uma revisão crítica da condição de vítima de cápsula. Informa, faz pensar e a editora Axóuxere fez um trabalho cuidado, mantendo a linha que a carateriza de publicar textos críticos, que impregnam a nossa sociedade de dinamismo e, aliás, neste caso, acompanhados de ilustrações magníficas sobre fundo negro: o livro é até um lindo objeto. Como em toda fita de Moebius o inquietante é que a autora não nos permita entrever um via de escape para o relato das clausuras. Nega nalgum momento a reiteração proposta por Judith Butler como saída possível. Mas é possível, a meu ver, intuir lá uma via. Dito em breve, os feminismos fundamentaram-se num nós forte: somos mulheres e somos tratadas como menores, convocando outras mulheres a entrarem num conflito aberto. Mas a partir de Butler cria-se uma fenda imensa. Se o género não existe −se só for possível representá-lo−, o nós apaga-se. Escapar à feminidade foi a solução proposta por algumas feministas, que passam a ser caricaturadas como mulheres feias, que não se depilam, terrivelmente suscetíveis, masculinas, e profundamente anti-homem, para além de mal-humoradas. Porém, no Body Art, muitas artistas, como Hannah Wilke ou Ana Mendieta desafiaram hiperfeminizando-se, mas… demonstrando que possuíam os médios de produção, a câmara fotográfica, de maneira que podiam retratar-se despidas e não ser mais um objeto de consumo, se se quiser “ao serviço do patriarcado”. Por isso, nesta época, não podemos estar certos de que repetir o género até a saciedade não sirva: a reapropriação é uma tática underground, de despossuíd@s e absolutamente feroz. E explica que tantas mulheres utilizem as velhas etiquetas insultantes como bandeira, chamando-se de putas, elaborando consignas que brincam com a obscenidade (“na minha cona não manda ninguém); convencidas de que iterar um termo resta poder à injúria. Importa saber estreitar o laço: retorcer a fita de Moebius para achar uma saída.

Na ótica de Butler, um termo como marica é um insulto dito num posto de trabalho a um companheiro e não é dito no tempo de lazer ao mesmo companheiro, for homossexual ou não (embora tenha diferentes resultados). Nesse sentido, um termo como mulher poderia ser insultante nalgum contexto e não noutros. E isso não dependeria, só, de possuirmos os meios de produção. A linguagem, mecanismo simbólico, cria o mundo. Neste contexto de mutações, o género há de vir travar uma batalha ainda mais dura em pouco tempo: o problema dos big data, dos dados sobre a nossa identidade com que ficam as grandes companhias para vender-nos qualquer coisa, mesmo se estão a negociar com a nossa intimidade, obrigará a formular a pergunta de se é uma informação relevante a de ser eu mulher. Pode virar contra mim? Estou em disposição de não permitir que se use essa informação biológica na maioria dos contextos? O dado é meu? Ou é o poder quem o regula e o usa à vontade? Nesta altura, a revisão da sexualidade da Messalina, do caráter mágico de certas deusas, sendo interessante, é já arqueologia. Gostaria de que Rebeca Baceiredo, pensadora, regressasse a este tema. Para dizer o que ainda não disse. Ela é uma máquina inferencial; pode cá iluminar. Muito.

Rebeca Baceiredo tenta responder à questão de como se constrói o relato de gênero. Podemos imaginar, apesar do seu tom de distancia científica, que mesmo conhece bem o artefacto em carne própria: é uma ela, não um ele. O assunto, na tradição marxista, não está em desmascarar o como funcionam os procedimentos, mas em transformarmos esse funcionamento; em tornarmos o aborrecimento num impulso revolucionário. Na Oiko-nomia realizou um exercício forte de síntese, com resultados sugestivos. Agora, poderia abandonar o X onde se situou −olho, o X com que se pretende evitar o masculino genérico é uma armadilha: continua a demandar qual é a identidade verdadeira−; e ir para a @, que também tem as formas sinuosas da fita de Moebius, mas está aberta: é instável, permite a mudança e convida a experimentar até o fundo a experiência teatral do género. Poderia indagar, com rotundidade, sobre se o ser-mulher é um papel executado. Porque, num tal caso, bastaria com alterar a performance para que deixasse de existir, como nas práticas queer. Haveria que perguntar também ao editor se editaria o livro na hipótese de ser um corpo não sexuado quem o assinasse. Seria possível a estratégia de não defender o livro com o relato adicional duma autora interpretável na sua cápsula? Se não fosse assim, a clausura viria a fechar-se mais uma vez sobre nós. Não podemos derrotar o amo com as ferramentas do amo. Podemos interpretar um papel, mesmo histriónico −o das femem exibindo os peitos, o da companheira de trabalho que insiste em que a interrompem por ser ela mulher e que isto é um micromachismo−, mas dificilmente poderemos criar um espaço como o que pedia Julia Kristeva, onde o género for tao irrelevante como a cor de olhos. Podemos ser quem queremos ser? Podemos sair da fita que nos obriga a repetir circularmente um retorno insuportável? Podemos (ainda) libertar-nos? E viríamos a libertar-nos exatamente de quê?

Azimute para o Mecanismo de emergência de Tiago Alves Costa (temperado com fatias de confissões e o seu molho de e-mails)

tiago_alves_costa

M

Do que nós precisávamos era dum conjunto de palavras

que escapassem à tentação de repetir slogans publicitários:

as palavras têm manias esquisitas, como essa de ecoarem sem jeito.

Do que nós precisávamos era dum poeta,

dum domador que controlasse o seu ardor; os espasmos de fogosidade.

Este nós pode ser variável em número e pessoa;

é um nós declinável.

Poderia aludir à literatura galega, ou à portuguesa, ou à galego-portuguesa

─ no caso improvável de ser permitido que esta exista ─.

Também poderia esse nós apenas consistir em eu e mais todo o pessoal,

se não fosse que precisar um poeta envergonha um bocado,

e que temos mais alguns no país, esforçados e tenazes,

que ninguém lê.

Minha mãe, quando eu era menina, se julgava que não comia bastante, entrava em pânico:

─ E tu? Porque não comes? És poeta?

O melhor era declarar-se poeta para evitar maior justificação:

─ Sim, mamai, por acaso sou poeta.

Haveria que explicar à mãe que não sou,

e que poesia é substância rara:

tolera-se só em doses ínfimas,

existe numa quantidade muito inferior ao que figura por aí publicado.

 

E

            A maioria dos escritores não dispomos da facilidade/felicidade do Tiago Alves Costa para acertar com a arte poética. Tentamos ter com ela e ela escapa, como um amante que não acudisse à cita. Se calhar, para entreter o tempo e por aguardá-la, começamos a escrever histórias. É bom assim, um relato bem contado não faz mal. Como temos que nos inventar personagens, os poetas fracassados não podemos incorrer em desvios, nem nos permitir o prazer de apropriar-nos da linguagem. Servimos ao relato. Mentimos. Não devem julgar-nos duramente por esta insistência em inventar-nos tudo. É possível que coloquemos palavras em boca duma personagem para a melhor caracterizar –nem sempre por pensarmos exatamente isso–, mas essa é uma das formas mais suaves da mentira. Na sociedade, um juiz ou um médico têm nome; isso significa que acumularam durante os anos de vida profissional um certo prestígio. Porém, um escritor deste grupo dos romancistas não consegue nome da mesma forma. Antes de mais, o seu prestígio procede de ter inventado histórias falsas. É um grande mentiroso que, em vez de ver-se desprezado pela sua condição, é considerado justamente por ela. Nada muito respeitável.  Terei de confessar:

─ Mamai, apenas tenciono ser narradora. A falta de apetito tem a ver com essa culpa.

Em consequência, narrar tem vantagens; a de tornar-se perito na mentira e a de poder comer sem perder glamour. Os poetas, na teoria da mãe, têm de ser todos tísicos. Mesmo se isto não for estritamente certo, dar no alvo em termos poéticos é terrivelmente complexo. Porque devem dizer verdade. Mas com frequência, ensarilham-se nos jogos concetuais, fazem malabares tontos com as palavras ou tornam-se tão herméticos que nem as mães os entendem ─ daí o de servirem mais sopa, para eles calarem duma vez─.

Porém, ainda não sendo poeta, sei quando algo acontece. A poesia tem de edificar uma potente performance: está lá para isso. Para que percebamos que está a suceder algo. Nem importa bem o que. Ativo o mecanismo. Quando um poeta, como o Tiago, aparece, põe em marcha os motores. Algo vai acontecer: nos sete dias da criação, hão de aparecer as criaturas todas, também as montanhas e ─ cuidado! ─, os cataclismos.

C

Nada, minha gente,

nada havia nas profundezas.

Por muito que eu tateasse no fundo da literatura,

tão feliz ao evocar este pequeno conto da minha infância

Nada.

A poesia, porém, existe: cá está!

A

 Na altura do poema 4 eu já pensava que o poemário estava escrito para mim.

Como poderei ser assim tão vaidosa?

Bom, sei que é ideia impossível: nem nos conhecíamos bem!

Nenhuma cabeça sã imaginaria que em tais circunstâncias o mecanismo pudesse estar escrito para mim,

embora a cada ano mais vezes me sonhe como destinatária única

de tantos folhetos, livros, capítulos e calhamaços

que se dão ao prelo sem potentes altifalantes.

Aliás, eu não tenho que conhecer os mecanismos para os mecanismos operarem

porque são máquinas que obedecem a sua disciplina

cegamente

e o texto era como escrito para mim, então era escrito para mim.

Ninguém morreu nunca por ter apagado um como.

Ou talvez sim.

Se não conseguires identificar a morte à primeira vista,

lembra que vida e morte têm o mesmo tamanho,

a mesma espessura, a mesma crueldade.

Consola isso: para uma criancinha, uma morte pequenina;

para os velhos anciãos com existências carregadas de erros, uma morte maior.

─ Mortes de tamanho S, mortes M, mortes L, mortes XL e mortes XXL─.

Embora não for certo, consola.

E uma força escura no verso atrai-me

i r r e m e d i á v e l m e n t e.

Ambas, vida e morte, têm o mesmo tamanho.

A mesma espessura. A crueldade.

 

N

Vou ter de repetir esses versos. Ao princípio, mencionar-te-ei:

─ Assim disse o Tiago Alves Costa em Mecanismo de Emergência.

Pronunciarei muito séria, para presumir de pessoa lida. Até que um dia não consiga evitar a traição. Às vezes ergo-me da cama com necessidade de seduzir mesmo as moscas. Nalgum desses dias há de a frase sair sem o teu nome. Confesso o delito antes de o cometer. Bem logo, até julgarei que se me ocorreu a mim. O cérebro não conhece os tempos verbais; nem sabe de passados, nem de futuros, muito menos de direitos de autor. E a verdade é que o meu cérebro já não pode imaginar-me a mim própria antes de ter enfrentado as manobras de suporte básico da vida. As manobras certas.

É só um exemplo.

Confio na minha memória. E sei que hão de os teus versos escapar pela minha boca.

Quem fez presente a quem?

Tu, que me deste as palavras?

Eu, que confessei desejá-las como próprias?

Quem nos faz o presente na literatura?

O autor que lemos? A leitora que nos lê?

A menos que ambos fechem um círculo,

uma figura geométrica formosa e perfeita.

Um círculo.

Nosso.

E, como partilhamos o círculo,

como desenhamos o círculo nós os dous juntos,

já te conheço,

embora não te conheça assim tanto,

e já tranquilamente penso que o livro tinha de ser para mim.

Se autores e leitores juntos se amoldarem a essa forma sinuosa,

então a falta de leitura é um atentado contra a matemática.

E a critica, quando no difundir adequadamente a existência

dessas figuras geométricas eternas e perfeitas,

tem mais bolor que o próprio Tales de Mileto, o que mediu as pirâmides.

Isso por não mencionarmos Epicuro.

Epicuro, tão adito aos prazeres, detestaria críticos.

O seu silêncio, a indecisão.

 

I

Como sabes, as mulheres da minha família nunca tiveram muita estima por poetas.

Poetas não comem.

Poetas não dizem verdade; dizem poesias e demais sonsices

para engatar, para enganar, para presumir quando declamam.

Se eu disser que temos diante dos olhos o mais complexo e fascinante mecanismo que já vi,

tu coras e não acreditas.

Por discrição ou por fingimento.

Mas eu poderia estar só a insinuar que não comes e harmonizas bem as mentiras.

Quando procuro o que é para mim o mecanismo,

quando conto como furou cá dentro,

pretendo fazer um exercício de sinceridade.

Seria mais interessante para demonstrar inteligência

assinalar um par de erros ou, especialmente, fazer citação de pensadores na moda.

─ especialmente franceses. Todos os filósofos franceses erotizam. Sem exceção.

Têm essa habilidade. Por isso aparecem tanto nas resenhas ─

Mas faltaria o essencial: a verdade,

essa senhora que caminha despida,

ainda que frequentemente se deixe ver com péssimas companhias.

Sei, portanto, da responsabilidade que carrego em ti

com as minhas palavras, pesadas como ferro.

Dalguma maneira, a leitora fere.

Crava no alvo um dardo

quente.

Eu apenas queria expressar, ao te chamar de poeta,

que não és um artesão desses que apalpam as palavras,

que não és um narcisista desses que tanto vemos nos saraus das letras,

nem um morto-de-fome.

És um professor de ginástica:

colocas as palavras, mandas que marchem, que corram mais rápido,

que parem,

que façam flexões,

até tu ficares à vontade com o resultado

Contas as pulsações das palavras e sais.

Nada a celebrar. Nada a dizer.

Tens outra turma que atender.

Mas acho que não ficas nunca numa posição de conforto.

Isso é de agradecer.

Especialmente neste tempo.

 

S

Em tempo de guerra

– Esse tempo que nunca experimentámos,

que nos contaram outras gerações com as suas batalhas idealizadas

ou as amizades intrépidas que se graduaram em medicina ou em jornalismo

ou que não se graduaram, mas que tinham a santa coragem de ir-se embora lá longe para dar

o tempo, a estabilidade,

para dar-se

no tempo, na voragem,

para fazer o que nós não fizemos –.

Em tempo de guerra, digo

corres, corres o mais rápido que podes

e, quando tentas desferir o grito, e o ar não é expelido e o diafragma trabalha,

apercebes-te de que talvez tenhas lutado em várias guerras,

nessas guerras da General Alva com o De Sempre,

nessas tuas guerras,

que te atropelam na saída dum bar

entontecido com a notícia

de que não existe essa guerra:

a tua.

Não existe.

Ou talvez só exista a tua guerra

e tudo o demais seja mentira.

 

M

Nalguns momentos penso que nos conhecemos dantes,

dum tempo remoto e antigo que não habitamos

e vieste a pôr em palavras sensações que partilhamos ou que te contei

numa dessas noites cumpridas em que combinávamos para estudar juntos

e que nunca existiram.

Nalguns momentos penso que o mecanismo estava escrito

mil anos atrás,

que eu devorei este livro noutra vida

e que ficou soterrado na areia.

Então tu és um simples arqueólogo

e apenas desenterraste o livro.

Isso há de passar inadvertido para o público e a crítica.

E eu guardarei este nosso segredo.

Mas há também outros momentos

em que dizes o que eu nunca saberia dizer

Posso perceber.

Como agora, quando estás na Alemanha e soa o telemóvel

e amavelmente solicitas que eu construa um azimute para entenderes

onde chegou o teu mecanismo.

Verdade obriga,

de maneira que devo confessar que nem sei bem o que é um azimute

e volta a soar o telemóvel para me dares o significado de “azimute”,

uma palavra que eu não tinha

e que agora há de ter a tua face quando eu a escrever.

E eu hei de escrever azimute mil vezes

para ressarcir-me à vontade da ferida desta língua que me negaram

e também para rir da crítica e partilharmos um outro segredo.

Porém, voltemos a esses momentos em que o teu verso é livre e feliz e dizes

Hão de as coisas cair sobre nós com calma

revisando a hipocrisia e as mentiras gentis

e eu sinto o teu sentir

mas leio o poema duma outra forma

porque mal chego ao fundo

e fico fascinada com esse

hão de as coisas cair sobre nós com calma

que eu nunca diria. Não assim.

E odeio-te um bocado.

Um instante, não mais.

Mas nesse instante a inveja esta a corroer-me

porque eu nunca saberia dizer assim e com essa profundidade.

Apodera-se de mim a fúria da narradora

e tenciono devorar as tuas palavras

confiando em aprendê-las de cor

porque no melhor dos casos eu apenas diria

As coisas hão de cair sobre nós com calma

ou o espanhol sorriria por trás e diria

cairão as coisas sobre nós com calma

Mas essa rutura, hão de as coisas cair,

que já emulei alguma vez neste escrito.

cria ritmo.

Amar é ritmar,

de maneira que é importante obrigar as palavras a terem corpo

como têm pele as vozes quando cantam

para virem fazer parte de nós.

E, por muito que tente consolar-me com a minha condição de híbrida,

mestiça como todos @s galeg@s,

sei que há muito mais lá,

nessa felicidade da palavra que não possuo

e que no mecanismo brilha:

o poder de dar profundidade à existência através da palavra.

Bem-dito sejas!

Porque eu quereria ser fiel cumpridora das minhas funções literárias

empregada da literatura ─ das nove às seis da alegria triste ─

Mas nem isso consigo.

 

O

            Li o mecanismo por primeira vez na praia. Gosto de nadar. Nado mesmo duma maneira algo excessiva quando vou até a praia para gastar um bocado de energia e não me transbordar na vida quotidiana: é importante caber em si. Mas naquele dia nem pôde chegar-me ao mar. Devorei o livro inteiro ─ ou, sei lá, talvez, o livro me devorasse a mim, ─ e regressei para a casa seca e fascinada. Assustada também. O prescritivo seria ler um livro de poesia aos poucos, para perfilar bem os matizes, para matutar nos assuntos com rigor. É fulcral equilibrar esse pendor para o thánatos e para o eros que poetas esbanjam cá e lá. Aliás, se poetas não comem, tem de ser porque deslocam a carne para as letras. Sendo assim, cumpre não se exceder com tanta substância nutritiva. Portanto, é lógico que me assustasse: não é são devorar sem bem mastigar. Nem muito menos é normal segurar-me à ideia de que não penso emprestar o meu exemplar a ninguém. Sempre acabo perdendo os livros de que mais gosto. O meu mecanismo tem areias de praia e quase todas as páginas dobradas para lá regressar. Ninguém transitou por elas até hoje.

Queria ser meu vizinho, uma página com uma dobra,

São os passeios que nos caminham, outra dobra,

Os homens que carregam dúvidas…, mais uma.

O riso

Exército de mães

7 voltas dá a chave da porta do vizinho

Tantos sinais que engrossam o papel e, a cada vez que leio de novo, encontro sensações novas. Logicamente, cada revista do livro faz-me duvidar da interpretação anterior. Não sei resumir – nem sequer para ti – o que o mecanismo me deu. Mas, como esperas que construa um azimute, devo ser metódica e ordenada. Devo fazer inventário. Encontrei:

─ 1 dor essencial, irremediável.

─ 2 faces, como Jano; uma olha para a esperança; outra conduz para o centro de ti mesmo. São irreconciliáveis os dois olhares, a tensão.

─ 3 ou 4 perdas. Soam irreparáveis.

─ 4 (ou 5) pontos cardinais que, felizmente, desorientam: como expressar-nos sem trair-nos e sem magoar? Como é possível sair de nós para comunicar nada? Faz sentido (ainda) um tempo de pautas? Para que servem os barcos parados no cais? Para que serve a poesia? E, no meio, uma voz que decide habitar a autenticidade, mas, a maioria das vezes, nem sabe nem pode evitar a ironia…

─ 6 ou 7 derrotas, todas coletivas (ou nem tanto assim).

─ 8 ou 9 homenagens ao menino que foste. Atenção com isto: nunca chegamos a ser algo diferente daquela semente.

─ 10 referências ao contraste entre as aparências e o real, porque poetas são tão ingénuos que ainda acreditam no real. Ou porque a sua arte é tão antiga que vem dum tempo em que nem o irreal se tinha inventado. Ainda.

Acho que este mecanismo vem dum percurso longo, que explodes após ter tentado resistir com tudo isto acima. Intuo algum cordão umbilical roto. Tencionas curar a dor dessa rutura com palavras, como se pudesses mimosear-te num ritual, pronunciando cuidadosamente um mantra. O curioso é que não sei se acalmaste tu, mas as tuas palavras – tão elegantemente cuidadas, sem dúvida– produzem também dor. Percutem com ferocidade. Lá é que consegues o trabalho político de multiplicar-te e, multiplicando-te, enfrentas a complexidade da vida e reduzes a simplificação das cápsulas minúsculas onde moramos. Crias um espaço para a ausência. Um desafio.

Mas depois, quando o mecanismo da emergência já foi ativado, quê? O que fazer?

Brindar, talvez. Brindar, com tempo.

Política da carne: A razão do perverso de Mário Herrero Valeiro.

Não é fácil perceber as cousas pelo meio, não. Num ensaio ainda somos capazes de digerir algo assumindo as instruções da retórica: uma introdução para captar a benevolência alheia, ajustada por vários argumentos na defesa da postura própria, antes de aproximar-nos dum desenlace mais ou menos contundente. Mas a poesia rompe as cápsulas. Talvez por isso Mário Herrero aborde A razão do perverso, a sua última entrega, completamente fora de pautas clássicas, a instalar-se no meio do assunto, como se tentasse fazer troça de géneros e de recomendações. O seu é um poemário rasgado de cima a baixo, um hieroglífico para alguém com vontades de desentranhar a dupla linguagem através dalgumas dicas – presentes já na sua obra prévia –: a tensão contra o poder, a derrota após um tempo de decadências onde o combate poderia ter corrido doutro modo, a insatisfação que produz um sistema (literário e nem só) com os seus pénis, as suas normas sagradas, a sua crítica diminuta, e os seus Octávios Paz.

Quando uma rês está rasgada de cima a baixo, estremece. Nunca estará mais despida e, contudo, a exposição despudorada do seu interior torna-a algo diferente dum corpo: dá nas vistas a sua condição de carne. Algo semelhante tem de acontecer quando o rasgado é um poemário. “Nunca comerás terra” – Não hás de humilhar-te. “Nunca beberás leite” – Não te nutras do que te ofereçam. “Nunca escreverás sobre o sexo do país” – Isso especialmente: seria material pornográfico, destrutivo. Eis as leis. E a estratégia para dar cabo delas é deliciar-se num ato sexual feroz, contra a terra e contra o leite; um ato destinado a “quebrar para sempre as inércias do país”. Herrero dixit. Mas, já agora, isso é passado porque o animal está morto; é carne. Portanto, o seu potencial erótico é apenas uma ilusão.

O poeta apresenta-se díscolo, descrido, dissidente. Poeta dos três dês, então. Desobediência é, com efeito, ofício de poetas. E lá foi o quarto dê, apesar de desobediência não ser boa receita para vender livros, ou talvez precisamente por isso. Um bocado de desobediência poderia ser do gosto da crítica, que se apresta a acariciar poetas malcomportados, sempre que se mantiverem nos limites do correto. Poetas sociais têm bastante com mencionar os esfomeados da terra para se abrirem um oco, embora os seus versos não deem de comer a ninguém. Versos carecem desse poder. Não multiplicam o pão, mas sim podem colocar os seus autores bem arrumados nas montras das livrarias. Porém, A razão do perverso nunca será chamada de poesia social, mesmo se estamos perante um discurso lacerado de feridas sociais. Nem social, nem intimista, apesar de percorrer o território íntimo do sexo. Também não será qualificada pela sua vontade de estilo, como é habitual no tipo de poesia que condensa a sua potência nos jogos de palavras, tão suculenta nos prémios literários, e isso ainda que o autor lute por cada palavra. Magistralmente. E com um desespero invulgar.

A razão do perverso recusa todas as etiquetas. Isso pode até ser positivo – etiquetas constringem – sempre que não fique, em troca, sem qualificativos perante o público e desassistido um livro original, impecável na construção, formalmente medido ao milímetro, que traça uma cartografia detalhada do ato de escrever cá e agora. A arte tem obrigação de recusar etiquetas; sempre que não seja produzida num país com tendências suicidas.

O pior que poderia passar-se seria que fosse apenas mencionado como o vencedor do X Prémio de Poesia Erótica Ilhas Sisargas. E não porque o tal prémio, mantido pela teimosia do ativismo, desmereça ninguém. Ao contrário; tem o imenso valor de tornar visível um género sempre em horas baixas e, aliás, é um dos escassos prémios galegos livres do Apartheid ortográfico. Mas A razão do perverso dificilmente pode acomodar-se na etiqueta de literatura erótica. Voltaremos nisso. Porque, com certeza, a sua leitura desorientaria quem procurasse nele um texto “quente”, sem mais aditivos – isso no suposto de existirem os tais textos eróticos sem outras pretensões.

O autor joga a exibir algo mais profundo do que a pele; a carne. Ou simplesmente será que a pele tem diversas camadas. Pode tratar-se da suavíssima pele do sexo dessas poetas-amantes que aparecem evocadas em cenas selvagens ou daquela mais curtida doutras partes do corpo. Em qualquer caso, é simples envoltório, onde falta o essencial, o que está dentro. Como a pele é fronteira subtil – a primeira fronteira, fácil de turbar e de penetrar no jogo erótico – a maneira de trespassá-la faz parte de toda ars amandi. Mas o poeta não se conforma com isso: evoca o erotismo com modos malandros, escandaliza. Lá é que pode começar a soltar as fúrias. Porque este livro, por muito que fosse felizmente premiado no Ilhas Sisargas, é tudo menos erótico. E a julgar por entregas anteriores, como A outra voz de Verónica Martínez Delgado e Alberto Momán, os júris do Ilhas Sisargas entendem o erótico duma maneira pouco convencional, o qual também deve ser celebrado.

Não convocam precisamente para o desejo os muitos “orgasmos simulados com a face falsa de Lisa Ann”, nem que importe pouco a intensidade do prazer. A libido chega da contradição, duma ela, “tão branca e estática”, que mal pode ser imaginada “com as suas coxas a ressumarem humidade”; da contradição entre o real e o sonhado: “e em nenhum corpo encontro / o que sonhei do teu corpo, / em nenhum quarto / a casa que desejei, / em nenhuma nação, o teu sexo”. Também da sensação da fugacidade do tempo: “Porque já nunca serei / o fauno do teu jardim”. Poderíamos suspeitar que ela, tão branca e estática, é a língua, se não fosse que o poeta quis começar in media res, quer dizer, que se resiste a ver expostos os seus símbolos. Mas é a ferocidade que se invoca, de maneira que as carícias dessa amante constroem projetos de livros que nunca chegaram a ser. As imagens mais fortes, com masturbações, cuecas e cricas, servem para o autor reconduzir a nossa sede de sensualidade. Deslocam essa sensualidade para outro sítio. Porque no sexo sempre se está a decidir outra cousa. Talvez, a mentira atroz de manter a esperança – como um casal de muitos anos que perdeu a fruição. Talvez, as mentiras não menos atrozes em que vivemos, a nadar em sistemas – também literários – banalizados, com o seus círculos e os seus livros que ninguém lê. Talvez seja apenas que o passado, insistentemente mencionado, onde ainda havia voz e as palavras tinham sentido, avisa da dificuldade do ato sexual, que não sabe de tempos verbais e se realiza num agora fugaz e, curiosamente, permanente. “Não me custa não ser / não ter obra, não ler […] Não me custa não estar, / não ter terra, / não te amar”. Os amantes desafogam-se entre as vísceras das crianças não nascidas quando já largaram tudo de si. Ou quando tudo se foi embora. A primeira a marchar, por sinal, foi a língua. E não será cá a língua o músculo erótico por excelência. Não.

O autor pratica um jogo de ocultações para aplicar-se à técnica freudiana de sermos na realidade o que mais precisamente ocultamos e tenta desenvolver uma política da carne, assim a chama, convencido de que quando tudo vale, a única honra é não estar; toda uma declaração de intenções. E uma lição de vida, com todo o seu pathos e a sua eloquência.

Texto denso, envolvido em referências literárias e filosóficas, num jogo de citações que definem um cenário mal ventilado, onde se move uma voz desesperançada e lúcida. Leitura múltipla, do corpo ao político, da escrita à paixão de resistir “numa estirpe de desterrados”, onde a voz masculina pretende falar despudoradamente de sexo – mas não quer ou não pode abandonar uma inusitada ternura para a condição humana, um tom por vezes humorístico, ciente das limitações do prazer e, contudo, da sua força. A tensão sexual paira entre o irreverente e a sua inevitável condição de consolo. Para incomodar. Para inquietar. Para debruçar-nos sobre a carne que está sob tantas camadas de pele suave e lasciva. E a poesia torna-se um órgão de conhecimento, uma espetacular anatomia do que se passa por dentro deste corpo social minúsculo que transitamos, onde, se for possível, um francoatirador autêntico – quer dizer, um poeta – largaria tudo para foder.Mário-Herrero-Valeiro.jpg